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Prêmio CP - 29/09/2016
15/05/2013 - 14h27
Vale do Silício faz grandes apostas no setor alimentício
Investidores financiam startups para produção de alimentos sustentáveis


E se a próxima novidade tecnológica não pintar no seu smartphone ou na nuvem? E se ela baixar no diretamente seu prato? A ideia está levando um amplo grupo de capitalistas de risco no Vale do Silício a fazer grandes apostas em alimentos.

Em alguns casos, a meta é ligar restaurantes a fornecedores de comida, criando serviços de entrega por meio de encomendas a granjas locais ou kits para jantar prontos para cozinhar. Em outros, é inventar novas comidas. Por exemplo, a criação de substitutos para o queijo, carne e ovos, a partir de plantas. Porém, como se trata do dinheiro do Vale do Silício, o objetivo final não é nada pequeno: transformar o setor alimentício.

´´Em parte, o motivo desses investidores estarem interessados nisto se deve ao fato do setor alimentar não apenas ser enorme como também, a exemplo do segmento energético, estar se saindo muito mal em termos de impacto sobre o meio ambiente, saúde, animais´´, disse Josh Tetrick, fundador e principal executivo da Hampton Creek Foods, startup que produz alternativos a ovos.

Para alguns investidores, as startups ligadas a comida cabem em seus portfólios de sustentabilidade, em conjunto com energia solar ou carros elétricos, porque pretendem reduzir o custo ambiental na fabricação de produtos animais. Para outros, elas estariam ao lado de investimentos na área de saúde, como aparelhos de ginástica e aplicativos para o monitoramento da frequência cardíaca. Já um terceiro grupo estaria animado em atacar um problema do mundo real ao invés de criar jogos com fazendas virtuais ou inventar novas formas de fazer as pessoas clicarem em anúncios.

´´Existem consequências ambientais bastante significativas e questões de saúde ligadas ao sódio, ao xarope de milho de alta frutose ou ao consumo excessivo de carne vermelha´´, disse Samir Kaul, sócio da Khosla Ventures, que investiu em meia dúzia de startups alimentícias. ´´Não apostaria que a Cargill ou a ConAgra serão inovadoras no setor. Creio que esse papel caberá às startups´´.

No ano passado, empresas de capital de risco no Vale canalizaram cerca de US$ 350 milhões para projetos alimentícios. Os acordos de investimento no setor foram 37% mais altos do que no ano anterior, segundo relatório recente da CB Insights, banco de dados de capital de risco. Em 2008, essa cifra era inferior a US$ 50 milhões. A quantida é apenas uma migalha dos US$ 30 bilhões que os capitalistas de risco investem anualmente, mas é o bastante para ajudar a financiar uma série de startups alimentícias.

Entre as empresas de capital de risco que estão auxiliando a financiar esses negócios estão alguns dos nomes mais famosos do Vale. Além da Khosla, podem ser citadas SV Angel, Kleiner Perkins Caufield & Byers, True Ventures e Obvious Collection. Celebridades de Hollywood, como Matt Damon, e do mundo da tecnologia, como Bill Gates, também estão entre os envolvidos.

´´Os consumidores estão interessados em experiências sofisticadas e muito bem entregues, que não vimos acontecer na internet e em produtos como o iPhone´´, disse Tony Conrad, sócio da True Ventures, um dos primeiros investidores na empresa de café Blue Bottle. ´´Agora, vemos o mesmo acontecer com alimentos e bebidas´´.

Os capitalistas de risco já se distanciaram anteriormente da tecnologia pura em favor dos alimentos. Cadeias de restaurantes como Starbucks, P.F. Chang´s, Jamba Juice e, mais recentemente, a Melt, receberam capital de risco. Aplicativos de receitas culinárias e sites com críticas de restaurantes, como o Yelp, são famosos há bastante tempo.

No entanto, essa nova onda de startups busca utilizar a tecnologia para modificar a forma pela qual as pessoas compram comida, além de, em alguns casos, inventar alimentos inteiramente novos. Os investidores também estão ávidos por lucrar com o movimento no sentido de comer menos produtos animais e mais comida orgânica. Porém, eles enfrentam uma contradição: esse movimento também se abstém de alimentos processados e, sem sombra de dúvida, é de baixa tecnologia.

´´Não é comida Frankenstein´´, afirmou Kaul, da Khosla Ventures. ´´Temos o cuidado de não fazer parecer uma experiência científica, mas existe tecnologia envolvida´´.

Empresas inovadoras

A Hampton Creek Foods, de São Francisco, usa cerca de uma dúzia de plantas, incluindo ervilhas, sorgo e um tipo de feijão, com propriedades similares a ovos, para criar um substituto deste.

Tetrick, o fundador da empresa, abriu o negócio depois de trabalhar reduzindo a pobreza na África subsaariana. Ele contratou um químico especializado em proteínas, um cientista alimentar, um executivo de vendas da Heinz e um participante do programa de televisão ´´Top Chef´´. Duas grandes empresas alimentícias estão utilizando os substitutos do ovo em biscoitos e maionese. Tetrick afirmou que começará a vendê-los aos consumidores no mês que vem.

A Unreal, de Boston, produz doces que, segundo os fundadores, não contêm cores e sabores artificiais, nem conservantes, gorduras hidrogenadas ou ingredientes modificados, com pelo menos 25% a menos de açúcar do que produtos similares no mercado, além de contarem com proteínas e fibras. O doce é vendido em lojas como CVS e Target.

A Lyrical Foods faz queijo com leite de amêndoa e macadâmia. O Kite Hill é o primeiro queijo não derivado de leite a ser vendido no Whole Foods. O sal Nu-Tek usa cloreto de potássio no lugar do cloreto de sódio para reduzir este último. Já as empresas Beyond Meat e Sand Hill Foods produzem hambúrgueres vegetarianos. Os investidores os consideram mais saborosos e, quando grelhados, os hambúrgueres se parecem mais com carne que os similares do mercado.

Todavia, investidores afirmam que os projetos têm maior chance de sucesso caso se afastem da venda de alimentos. ´´A categoria alimentícia é um osso duro de roer por se tratar de um item perecível´´, garantiu Mark Suster, investidor da GRP Partners. ´´A coisa que os capitalistas de risco estão procurando são negócios escaláveis, repetíveis e com altas margens de lucro. Isso é possível com alimentos, só que é mais difícil´´.

A empresa de Suster, por exemplo, está explorando o setor alimentício ao investir em serviços virtuais como o ChowNow, um restaurante online.

O GoodEggs, outro serviço da internet, é um mercado para produtores rurais locais e chefs dedicados a artigos artesanais, como queijo, mel, geleia e azeite de oliva. Outra companhia, Farmigo, está adotando uma estratégia similar.

O Kitchensurfing é um site para a contratação de chefs que dão aulas particulares de preparação de espaguete ou comida tailandesa autêntica, da mesma forma que se pode reservar um quarto pelo Airbnb.

´´Os chefs passam o tempo todo trabalhando e nos mercados agrícolas´´, disse Chris Muscarella, uma das fundadoras do site. ´´Eles não ficam sentados na frente de um computador. Assim, o fato de finalmente conseguirmos mais chefs online por meio de equipamentos móveis é um grande acontecimento para o mundo culinário´´.

Bill Maris, sócio do Google Ventures, a divisão de investimento do gigante de buscas que injetou capital de risco no Blue Bottle Coffee, disse estar acompanhando a tendência de perto. Segundo ele, ´´startups são imprevisíveis e todas essas empresas estão tentando tirar proveito da nova tecnologia e dos mercados que estão mudando´´. Contudo, ele acrescentou, ´´em 2000, as mesmas perguntas foram feitas a respeito do YouTube e ninguém nem sequer sabia se funcionaria, que dirá virar um negócio´´.

 

 

 

Fonte: The New York Times

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