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Prêmio CP - 29/09/2016
20/12/2012 - 09h30
´Meu plano de negócios começou ainda no colo da minha mãe´
Hoje, recontando a história, entendo que meu plano de negócios começou na infância, quando provei brigadeiro pela primeira vez.


Será que é a gente quem começa um negócio ou é o negócio que começa na gente? Nunca planejei abrir um ateliê especializado em brigadeiro, tudo aconteceu naturalmente, como deve ser aquilo que é verdadeiro. Hoje, recontando a história, entendo que meu ‘plano de negócios’ começou ainda no colo da minha mãe, quando provei brigadeiro pela primeira vez.

Senti uma alegria sem tamanho, que expressei num sorriso sem dentes. Aos quatro anos, quando passei a alcançar a mesa de doces com as minhas próprias pernas gorduchas, só tinha braços para o brigadeiro, nenhum outro doce. Aos 6 anos de idade fiz o primeiro brigadeiro da minha vida, com a ajuda experiente da minha avó Ignês, que era doceira. Mais do que a receita, aprendi com ela o que viria a ser mais tarde o princípio do brigadeiro gourmet: o respeito pelo doce.

Naquela perfumada cozinha de interior, o brigadeiro era feito com leite condensado artesanal, manteiga caseira e raspas de puro chocolate no lugar do granulado artificial. O doce saía da panela pouco antes do parabéns e não um dia antes da festa (fazendo escala de 24 horas em cima da geladeira), como sempre acontecia na minha casa. E na hora de enrolar, vovó selecionava os netos mais coordenados, de maternal feito.

Será que é a gente quem começa um negócio ou é o negócio que começa na gente? Nunca planejei abrir um ateliê especializado em brigadeiro, tudo aconteceu naturalmente, como deve ser aquilo que é verdadeiro. Hoje, recontando a história, entendo que meu ‘plano de negócios’ começou ainda no colo da minha mãe, quando provei brigadeiro pela primeira vez.

Senti uma alegria sem tamanho, que expressei num sorriso sem dentes. Aos quatro anos, quando passei a alcançar a mesa de doces com as minhas próprias pernas gorduchas, só tinha braços para o brigadeiro, nenhum outro doce. Aos 6 anos de idade fiz o primeiro brigadeiro da minha vida, com a ajuda experiente da minha avó Ignês, que era doceira. Mais do que a receita, aprendi com ela o que viria a ser mais tarde o princípio do brigadeiro gourmet: o respeito pelo doce.

Naquela perfumada cozinha de interior, o brigadeiro era feito com leite condensado artesanal, manteiga caseira e raspas de puro chocolate no lugar do granulado artificial. O doce saía da panela pouco antes do parabéns e não um dia antes da festa (fazendo escala de 24 horas em cima da geladeira), como sempre acontecia na minha casa. E na hora de enrolar, vovó selecionava os netos mais coordenados, de maternal feito.

Se a bolinha não ficasse redondinha e do mesmo tamanho das outras, tinha que refazer até acertar. Brigadeiro “careca” também não passava de jeito nenhum, o bom aqui, é que comíamos estes escondido. As raspas de chocolate, muito bem tiradas, tinham que cobrir toda a circunferência do doce. Depois de tanto trabalho, era de se esperar que os brigadeiros não circulassem em modestas bandejas de papelão. Minha avó fazia questão de dar a eles a dignidade de serem servidos em elegantes pratos de porcelana, como os doces de gente grande.

Meu passatempo preferido (depois do Atari) passou a ser fazer brigadeiro. O hábito, incomum para uma criança com pouco mais de meia década de vida, logo rendeu um apelido, “Maria Brigadeiro” (que hoje certamente seria interpretado como bullyng). O codinome me serviu de inspiração para seguir adiante nos meus experimentos.

Comecei, aos 10, um caderno de receitas só de brigadeiro: sem chocolate em pó, recheado de uva, coberto com caramelo…Foi ali que tive o insight de criar novas versões do doce, adicionando outros ingredientes na massa. Aos 15 anos, meu caderno já contava com mais de 30 receitas inéditas de brigadeiro e anotações suficientes para um livro – que publiquei em 2008.

O tempo passou e, aos 19, chegou a hora de prestar vestibular. Não havia, na época, faculdade de gastronomia (muito menos de brigadeiro) e optei por jornalismo porque minhas redações da quarta série sempre ganhavam estrelinhas. Até os 28, o brigadeiro continuou sendo meu doce favorito e sempre dava um jeito de infiltrá-lo numa matéria aqui e ali. Hoje, pesquisando no Google, vejo que fui uma das jornalistas que mais escreveu sobre o doce – sem ter qualquer relação comercial com ele.

Chegaram, finalmente, os cursos superiores de gastronomia e aos 29 fui fazer um deles, meio que por acaso, para escrever melhor sobre o tema, que era uma das editorias da revista pelas quais eu era responsável. Cheguei nas aulas de confeitaria ávida por novas técnicas de preparo de brigadeiro e quando vi que não havia no programa qualquer referência ao doce (que é, afinal, o mais popular do Brasil), questionei a professora.
O que ouvi foi que “não havia nada para aprender sobre brigadeiro”. No entanto, passamos semanas penando para acertar o ponto (e a pronúncia) de um tal de macaron, que ninguém fazia ideia do que era e de onde vinha. Tive certeza de que o brigadeiro era um doce subvalorizado e que ninguém, até aquele momento, enxergava nele um potencial gourmet.

Arregacei as mangas e botei a panela no fogo, convencida a provar o contrario. Adaptei as técnicas clássicas às minhas velhas receitas (usei aquela aula de macaron, por exemplo, para criar um brigadeiro de amêndoa), juntei na massa tudo o que aprendi com a minha avó e o resultado foi um brigadeiro realmente diferenciado, que chamei de “brigadeiro gourmet”.

Até aqui, não tinha associado brigadeiro a negócio. A virada aconteceu espontaneamente, numa festa de amigos. Levei brigadeiros de vários sabores (as pessoas só conheciam o tradicional) e arrumei eles nos pratos de porcelana da minha avó. Fiquei sentada num canto, só observando a reação das pessoas. Não tinha quem não parasse na mesa de doces.

Quando as pessoas souberam que eu era a autora dos brigadeiros diferentes, perguntavam insistentemente se eu fazia para vender. Respondi repetidas vezes que “não”, que era jornalista. Três taças de vinho depois e uma década de certeza de que estava na profissão errada, disse que “sim”, que fazia para vender e que tinha um ateliê de brigadeiro gourmet”. Não tinha.

No dia seguinte, lá estava eu na redação, fechando o manual de “como conquistar o homem ideal em 30 passos” quando o telefone solidariamente tocou. Era uma convidada da festa da noite anterior fazendo a primeira encomenda oficial: mil brigadeiros. Minha primeira reação (depois de recuperar o fôlego) foi pensar em desfazer o mal entendido, dizer que eu era jornalista e que não havia um ateliê de brigadeiro gourmet com endereço fora da minha imaginação.
Não tive coragem. Aceitei o desafio.

Passei a noite na “rave” dos brigadeiros e no dia do evento sofri um segundo bullyng: uma amiga distribuiu um monte de cartões com o meu apelido, “Maria Brigadeiro”, e o número do meu celular. A brincadeira ficou séria. No dia seguinte meu telefone não parou de tocar. Tarde demais para voltar atrás. Depois de três meses insone (fazendo brigadeiro à noite e trabalhando na redação de dia) tive que escolher um dos dois. Fiquei com os brigadeiros, pois, aos 30 anos, finalmente entendi que a minha contribuição ao doce seria bem mais genuína do que sair prometendo homem ideal por aí.

Fonte: Estadão PME - 19/12/2012

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